Diz-se com orgulho, nos quatro cantos deste esferoidal mundo que a saudade é um sentir típica e calorosamente Português. Assumimos com uma honra incontida que apenas a nós esse sentir pertence. Somos donos incontestáveis... Tecemo-la no fluir de um fado triste sobre algo ou alguém, num timbre de voz rouco, gutural, primário. Como se cada palavra viesse do mais profundo da alma onde a tristeza, a magoa... O Todo que o consome e destrói... Usamos boas frases carregadas de melancolia como "tudo isto existe tudo isto é triste tudo isto é fado"... Mas dentro da palavra saudade, cujo o vestido da definição parece sempre nunca assentar correctamente, existe A Saudade. A saudade de mim. Essa não se compõe numa musica, não se pinta numa tela, não se desenha... As palavras surgem-me sempre parcas, limitadas e limitantes. Vejo-as como polvilhadas de um sabor profano, como contaminadas pela fraqueza do que tento sobre elas edificar. O escrever torna-se ridículo mas, numa auto flagelação do meu ser, tento em vão criar algo que faça sentido na cacofonia que as palavras traduzem... Pecaminosas tiram a grandeza ao sentir que nelas quero traduzir... O Sentir... Mesmo que em mim nada feliz neste momento me preencha, parece-me fácil esse sentido... Mas tenho saudades de rir, de sorrir, de colo, do conforto maternal, do tempo de criança, do tempo em que não tinha problemas uns atrás dos outros... Em que encontrava sentido para cada dia passado, presente e ao mesmo tempo vislumbrar o futuro, tomando-os como a novidade de que me estava garantida a cada dia. Hoje está garantida apenas a cegueira de tudo o que vislumbro em mim.
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