domingo, 23 de outubro de 2011

Trapézio

Sou um artista neste circo onde vivo. Um destemido, mas reservado trapezista. Arrisco todos os meus dias nesta caminhada que, assente num fio de arame fino, se estende num trapézio a que chamo viver... Trapézio sem rede, sem a protecção de um destino ou o conforto de um futuro com se possa sonhar. A cada passada mais esquecido fica no meu espírito esse verbo que, noutros tempos, elevava bem alto qual estandarte que nos honra. Somente estou cinicamente vivo... O meu coração bate num compasso descompassado, respiro de forma irregularmente ligeira, penso de uma forma aleatória e caótica, sinto de forma tristemente nostálgica. Talvez seja esse o erro de Descartes e o erro do António Damásio ou, por muito que me desconsole o espírito o erro do Mestre Fernando, o Pessoa, no seu tudo merece a pena se alma não é pequena. Todo o meu sentir consome tudo o que a sua volta existe, qual buraco negro, de onde nada escapa... Será este pensar existir? Definitivamente não... Será este sentir um sinal de existência? Decididamente Não. Nesta realidade apenas sobreviva, desenhado num presente imprevisto, pintado nos tons fortes do inimaginável que vivo em mim.

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